“A câmara (...) consultou a legislação de polícia municipal de algumas das mais importantes cidades da Europa (...)”

Quando em 1856 o visconde da Trindade, então Presidente da Câmara do Porto, faz a presente afirmação justificando a execução das posturas municipais de 1855, as primeiras posturas modernas da cidade, evidencia o desejo que acompanha o Porto desde o final das guerras liberais: transformar-se numa cidade moderna que possa ombrear com as melhores da Europa.

E é esse mesmo desejo e desígnio que leva, em 1915, a municipalidade a convidar Barry Parker a pronunciar-se sobre os planos de transformação do centro cívico da cidade, situado então na praça D Pedro, cuja dimensão se tornava acanhada para albergar um conjunto de funções necessárias a essa dimensão moderna - do sector financeiro às sedes de grandes empresas passando por jornais, cafés, renovadas lojas ou clubes, sem esquecer as importantes infraestruturas de transportes e comunicações.

É este processo de transformação que a presente exposição pretende mostrar, a partir dos documentos da época, planos e projetos, do espaço público e da edificação, permitindo, ao longo da mesma, o confronto entre o projeto e a realidade efetivamente concretizada, virtualmente condensando o longo tempo de construção e evolução da cidade.


Núcleos expositivos

A exposição organiza-se em 3 núcleos temáticos, que pretendem ter uma relação direta com o espaço físico da cidade. Ao contrário de uma exposição convencional, com uma única ordenação física, são criadas ligações entre núcleos que permitem rápida navegação entre temas, possibilitando, não uma, mas múltiplas narrativas, dando, em última instância, o controlo ao utilizador.

São três os grandes conjuntos documentais disponibilizados: Espaço Público, Construção dos Edifícios, Paços do Concelho.

No primeiro núcleo Espaço Público primeiramente mostra-se e explica-se documentalmente a cidade anterior à criação da Avenida da Cidade, seguindo-se a apresentação do projeto de Barry Parker para o novo Centro Cívico; e, por último, destacam-se alguns momentos de um longo caminho de hesitações e concretizações, de planos, projetos e obras, até chegarmos à cidade atual.

Se o espaço público e o seu desenho é a base que suporta as intervenções e o redimensionamento do centro cívico, é a Construção dos Edifícios que lhe irá conferir o seu carácter e ambiência, transformando os planos iniciais numa outra ideia de cidade, numa outra cidade real, sendo por isso este o núcleo principal da exposição e o mais extenso.

Interessou-nos centrar a apresentação no período entre guerras, época em que a maior parte dos edifícios da Praça da Liberdade e dos quatros primeiros quarteirões da Avenida fica concluída. Com o final da segunda guerra mundial estávamos já perante um mundo diferente. E apesar de Portugal não ter participado na guerra, não deixou de ser alterado por ela. A sociedade e a cidade são já distintas e isso é perceptível nas edificações que se constroem a partir dessa altura na Avenida, que até a denominação vê alterada: Avenida dos Aliados. Perde-se a ideia de uma unidade de conjunto assente na diversidade mas com elementos de unificação como o material ou ritmos de composição de alçado e encara-se isoladamente as novas construções, num confronto com o antigo que as novas ideias e os novos estilos ensinavam a menosprezar. A forte exploração imobiliária também faz a sua entrada e é na zona mais alta da Avenida que também os edifícios crescem, ganhando mais andares, outras escalas de intervenção, agora baseada em grandes lotes e não já nas pequenas frações que anteriormente tinham edificado a Avenida (unificadas pela definição de alçados de conjunto, à semelhança das intervenções da época Almadina e portanto enraizada já na tradição portuense). 

E quando se redesenham os limites do quarteirão poente, junto à Praça do Município, pela primeira vez se assume repetir o processo, e começar nova alteração dos edifícios construídos na Avenida. Processo esse nunca concluído e que deixou uma incompreensível empena como vista privilegiada a partir do edifício municipal.

A informação disponibilizada sobre os edifícios construídos até ao final da década de 30 organiza-se por quarteirões. Na Praça da Liberdade [Quarteirão do Banco de Portugal e Quarteirão do Imperial] e na Avenida [Quarteirão de A NacionalQuarteirão do Edifício Pinto LeiteQuarteirão de O Comércio do PortoQuarteirão da Caixa Geral de Depósitos e Quarteirão do Clube dos Fenianos]. Na generalidade dos edifícios optou-se pela designação das funções e proprietários iniciais.

A seleção dos elementos desenhados pretende ser a mais representativa, respeitando os critérios de reserva de privacidade e segurança, das instituições que os cedem. Foi dada primazia a elementos gráficos pelo carácter que se pretendeu dar à exposição, eminentemente visual, bem como pela escolha do suporte eletrónico. Contudo são deixadas ligações para elementos complementares, quando os mesmos estão parcial ou totalmente disponíveis na internet, permitindo ampliar a exposição, e o conhecimento da história da construção da cidade, para além dos limites do material especificamente organizado (periodicamente estes links serão atualizados, designadamente acompanhando o esforço da CMP, via AHMP, de gradual disponibilização online do seu importante acervo).

O terceiro núcleo apresenta os projetos do edifício dos Paços do Concelho desde a proposta de Barry Parker, e dos primeiros elementos do processo de concurso lançado ainda em 1916, cujo vencedor foi o arquiteto municipal António Correia da Silva, com a divisa Alea, passando pelo projeto que começou a ser edificado a partir da década de 20, algumas das alterações ao mesmo, até à sua inauguração em 1957.

Paralelamente a estes três núcleos expositivos independentes e agregadores, temos um conjunto de Outros Registos que nos permitem reconhecer a cidade no seu tempo, onde se recolheram memórias cinematográficas e fotográficas (incluindo várias fornecidas por privados), e um conjunto de ligações para Locais de Interesse onde mais documentação sobre a Avenida dos Aliados e a cidade do Porto pode ser encontrada.

E porque se pretende que esta exposição não seja um caminho terminado, mas sim um espaço que se devolve à cidade para que ela o use, aproprie e transforme (como o foi, no seu tempo, o projeto da Avenida da Cidade), cria-se o espaço de todos, a Ágora, para partilha de documentação, testemunhos e opiniões.

Clara Pimenta do Vale