Encerra-se o ano comemorativo dos cem anos do lançamento da nossa Avenida da Cidade, com a exposição retrospetiva do processo da sua conceção, montagem e sucesso, com particular atenção à evolução das formas arquitetónicas que lhe deram corpo ao longo de um século de vida como principal sala de visitas da cidade do Porto. Optou-se pela colocação do evento como exposição virtual com o apoio da TVU.Universidade do Porto.

Colocar uma exposição evocativa na nuvem informática pode ser a ideia deslumbrada de quem sonha com o livro eterno, imaterial e indestrutível, documento imune ao bicho do papel e à humidade do tempo, mesmo se perdido na imensidão da biblioteca do céu por não se encontrar o catálogo necessário para atingir o seu cacifo de proteção. Na convicção de que um qualquer furacão das Caraíbas não vai varrer a nuvem para o infinito da estratosfera.

Todo o século XIX vinha dando corpo a um processo de reorganização da cidade, na resposta a um crescimento contínuo de atividades e população residente, iniciado com o Iluminismo. O comércio do vinho e a comunidade britânica residente, instalaram no Porto o espírito da New Town e contribuíram com uma marca arquitectónica de rigor Neoclássico que fez tradição simplificadora para novas expectativas de mudança.

A cidade assistiu a um esboço de revolução industrial com expressão no último quartel de novecentos, beneficiando da capacidade de investimento de muitos torna-viagem enriquecidos nas Áfricas e Brasil, oferecendo o capital financeiro para a consolidação da comunidade liberal e burguesa. Movimento impulsionado também pela lógica de infraestruturação em transportes e pela diversificação do comércio marítimo internacional.

Foi então que a cidade se partiu: os sectores mais antigos próximos da margem do rio, tendo como centro dinâmico do comércio exportador a Rua Nova dos Ingleses, sob a tutela simbólica do Palácio da Bolsa; a norte do velho burgo as zonas novas partindo da Praça D. Pedro, onde se iam instalando os novos comércios do retalho provisional e a atividade financeira, a par dos principais serviços administrativos.

As pontes cativaram a chegada do tráfico individual e coletivo vindo do sul, conduzindo-o para o alto da Batalha e, daí, para o Largo de S. Bento. A abertura da Rua de Mouzinho da Silveira, posta operacional em 1897, acelerou a chamada de S. Bento à função central, oferecendo prioridade à Praça Nova, que se vinha consolidando como centro cívico desde a consolidação da vitória liberal, beneficiando também da presença da sede municipal.

Por essa época a burguesia portuense instalada no poder municipal estabeleceu um plano de abertura de grandes avenidas, ao modo europeu, para dignidade e prestígio da segunda metrópole portuguesa. Começando pela ligação da Praça Nova à Trindade, o seu passeio público, boulevard à francesa, sala de visitas do tempo novo. Este foi o episódio marcante da entrada no século vinte.

E foi, também, o território de intervenção prioritária tomado pelos promotores de novas construções servindo-se de arquitectos, engenheiros, condutores de obras públicas, em resposta às solicitações de novos capitalistas. Um processo que durou décadas até à configuração atual do centro cívico, lugar de referência para as grandes manifestações de vida coletiva, quer seja de natureza cultural, lúdica, política ou desportiva.

Domingos Tavares