A 1 de fevereiro de 1916 Bernardino Machado, então Presidente da República, retira a primeira pedra da fachada ocidental do Palacete Monteiro Moreira. Localizado na Praça D. Pedro, o edifício tinha servido de sede ao Município Portuense, desde 1819. A cerimónia dava início à sua demolição e com ela estava oficialmente lançado o processo de construção do Novo Centro Cívico da Cidade.

A 1 de fevereiro de 2016 cem anos passados, a Fundação Marques da Silva e a Câmara Municipal do Porto evocam este facto simbólico com uma sessão no Átrio dos ‘Novos’ Paços do Concelho. Aí se anuncia a vontade de concretizar “No Centenário da Avenida”, um programa aberto à cidade, assente em três módulos: Visitas Guiadas; Conferências/Debate; Exposição.

Cinco edifícios emblemáticos, Cinco arquitetos, Cinco visitas guiadas para dar a conhecer a Arquitetura da Avenida e a importância dos edifícios na caracterização espacial do centro cívico. 

A 21 de maio, Carlos Machado apresenta a sede projetada por Marques da Silva para Companhia de Seguros A Nacional. É o número 1 e com ele se determina a imagem urbana e monumental da Avenida dos Aliados [texto de enquadramento]. 

A 28 de maio, com Francisco Sousa Rio, é a vez do Banco de Portugal, edifício monumento pensado para qualificação da Praça da Liberdade. Projetado por Miguel Ventura Terra e José Teixeira Lopes, mas continuado e concluído pelo engenheiro José Abecassis Júnior [texto de enquadramento]. 

A 4 de Junho, João Pardal Monteiro, apresenta o projeto de Profírio Pardal Monteiro para a Caixa Geral de Depósitos. Um contra projeto no que se refere às linhas dominantes que se iam instalando na Avenida, mas representativo dos valores distintos adoptados pela instituição a nível nacional [texto de enquadramento]. 

A 18 de Junho, André Camelo e Miguel Ribeiro, com a visita ao Edifíco nº 156, integrado no Quarteirão VI, levam-nos de regresso a Marques da Silva. Aí se constata a monumentalidade e representatividade requeridas à dignificação da Avenida, só que aplicadas a uma realidade distinta: pensar e garantir a ampliação e alinhamento de edifícios já existentes, situados na desaparecida Rua Elias Garcia e destinados a habitação, comércio e escritórios [texto de enquadramento].

A 2 de julho, completa-se o ciclo com o comissário do programa geral, Domingos Tavares. Momento de revelação e entendimento da história e perplexidades que rodeiam os Paços do Concelho, projetados por Correia da Silva, concluídos por Carlos Ramos: uma construção arquitetónica concebida para se tornar símbolo do poder municipal e da identidade cívica portuense [texto de enquadramento].

Do plano abstrato à cidade real foi o tema agregador do segundo módulo do programa “No Centenário da Avenida". Tinha como propósito evidenciar a importância da conceção original para a avenida e a sua evolução no contexto específico da cultura portuense, traçando as circunstâncias e a natureza dos confrontos de ideias havidos nas primeiras décadas do século XX, que viriam a fixara o desenho concreto da Avenida de hoje. 

A 19 de setembro, Andrew Saint e Rui Tavares expuseram os seus pontos de vista sobre “A teoria de Centro Cívico em Raymond Unwin e o projecto de Barry Parker para o Porto”. O cenário internacional, nacional e local que justificaram a presença de Barry Parker na cidade e explicam as proposta então lançadas para construção do Centro Cívico.

A 26 de setembro, Elisabeth Essaïan e Manuel Mendes, a partir do tema "A ideologia do boulevard: das experiências de Paris à refundação" proporcionaram um confronto entre Moscovo e Porto, duas realidades urbanas geográfica e politicamente distantes, com uma topografia e escala bem diferenciadas e com os seus autores/construtores a seguirem diferentes escolas, mas ambas a desejarem converter-se, a partir do ordenamento das suas redes viárias e da monumentalização da sua arquitetura, em símbolos de poder e prosperidade económica.

A 3 de outubro, Paulo Pereira e Domingos Tavares, encerraram o ciclo com uma sessão onde se abordou “A Avenida da Cidade como síntese urbana do republicanismo portuense”. Uma reflexão sobre as práticas culturais na Baixa do Porto e o que acabou por definir o centro cívico. Na Avenida das Nações Aliadas temos um exemplo desse entusiasmo pela definição de uma imagem de carácter monumental com recurso ao tratamento arquitetónico das fachadas que configurariam o progresso e as perspetivas quanto às futuras dinâmicas urbanas, mas com uma imprevista incursão pela arcaica necessidade de marcação do território – transversal à humanidade, que da resposta a um impulso mágico e religioso se vai convertendo em desejo de regulação do espaço, ordem social, representação de poder e manifestação cívica.

Exposição Virtual é o remate do caminho que foi sendo construído e percorrido desde 1 de fevereiro de 2016. Nela conflui o desejo primeiro de fixar a memória de um momento reconfigurador do centro do Porto, de o entender, de reunir os documentos que o registam, de lhes propor uma leitura. Um caminho em aberto porque convida à sua permanente revisitação e à participação de todos quantos lhe possam acrescentar sentidos.

Paula Abrunhosa